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domingo, 6 de novembro de 2016

O CORPO
“...para ocupar-se consigo mesmo, é preciso conhecer-se a si mesmo; para conhecer-se é preciso olhar-se em um elemento que seja igual a si; é preciso olhar-se em um elemento que seja o  próprio princípio do saber e do conhecimento; e este princípio do saber e do conhecimento é o elemento divino. Portanto é preciso olhar-se no elemento divino para reconhecer-se: é preciso conhecer o divino, para reconhecer a si mesmo.” (FOUCAULT, 2006, p 89)

Mas de que corpo estamos falando?



O corpo entra em cena como determinante de nossa existência, a partir do qual se tece o sujeito por vias de sua própria experiência no mundo.

Lela Queiroz, em seu livro Corpo, Mente, Percepção (2009) afirma que o corpo _ entendido como mediação do sistema-mundo em tempo real e mente encorpada _ diz respeito a todos os processos que exercem algum tipo de papel na invenção do conhecimento, e colocam mente e corpo como processos co-evolutivos.

Ao contrário do dualismo cartesiano, corpo e mente não estão separados, mas, antes, formam uma unidade, um todo indissolúvel. Existem entre eles vínculos íntimos. O corpo pode ser considerado como nosso primeiro suporte de informação. Nosso ser e estar no mundo – corpo –  é permeado por uma infinita teia de signos e linguagens. Portanto, é constituído dinamicamente pelas mediações que estabelece através das trocas informacionais com o meio em que se insere e com outros corpos, numa relação complexa e evolutiva. Ao mesmo tempo em que nos apropriamos desta teia, nós também a construímos. O corpo em seus sentidos, abre-se para si mesmo, para o outro e para o mundo, fazendo notar que a interioridade só existe exposta à exterioridade, alertando que o palpar e o ver demandam um ser palpado e outro visto. Corpo e mundo estão em construção perpétua, na trama da reversibilidade, transitividade e irredutibilidade de cada um dos sentidos que configuram o corpo sensível.

Às voltas com o enigma que nomeamos corpo, estão saberes fracionados em disciplinas das mais variadas. Descobertas recentes em estudos das ciências cognitivas sobre o complexo cérebro-corpo-ambiente (DAMÁSIO, EDELMAN, LLINAS, THOMPSON) foram fundamentais para novas investigações acerca do corpo. Um dos seus diferenciais de abordagem nos estudos de percepção passa pela consideração do corpo como eixo principal da cognição e de passar a entender percepção como ação (GIBSON, THELEN).

Merleau-Ponty (2006) assegurava que, somente através dessa fenomenologia incorporada, voltada para os modos de percepção, é que aprenderíamos a verdadeira filosofia, aquela que nos permitiria rever o mundo, via corpo. Corpo cognoscente que, portanto, “é iniciação ao mistério do mundo e da razão”.

Ainda segundo Merleau-Ponty (2006):
por vias da percepção o sujeito torna-se o lugar das coisas, a percepção não ocorre primeiramente no mundo; não há um estímulo de fora que ativa o corpo por dentro; não se sente por uma ação exterior ao corpo; a categoria da causalidade não se aplica nesse sentido. O campo perceptivo é sempre atual e denota uma superfície de contato ou um enraizamento no mundo, um assalto constante à subjetividade, à lacuna que somos. O sujeito que percebe é o mundo percebido, o corpo é um sensível-senciente, isto é, sente-se além de sentir e ser sentido, é sensível para si mesmo – um visível que se vê vendo, um tocante que se toca tocando, um móvel que se move movendo.”

Não somos um corpo objeto como querem as ciências, somos um corpo habitado e animado pela consciência. Ao mesmo tempo, não somos uma consciência cognitiva pura, visto que esta está encarnada em um corpo. Não somos puro pensamento, porque somos corpo. Não somos objetos, porque somos consciência. Nega-se ai, mais uma vez, qualquer separação que pudesse haver entre corpo e consciência, tornando-se, portanto, corpo-consciência.

Merleau-Ponty (2006) afirma que o visível está prenhe de invisibilidade, não sendo eles contrários ou comparáveis. São direito e avesso, visível e invisível, sensível e senciente, como dois lados irredutíveis de um só Ser.

Helena Katz, filósofa, pesquisadora, professora, crítica e palestrante nas áreas de Comunicação e Artes, em seu estudo Do Que Fala o Corpo Hoje? publicado em Teologia e comunicação: corpo, palavra e interfaces cibernéticas (2011), afirma a co-dependência entre corpo e ambiente, gerando a impossibilidade de se pensar em um sem pensar no outro. Diz ela:
“A cultura “carnifica-se” no corpo. O que está fora adentra, e as noções de dentro e fora deixam de designar espaços não conexos para identificar situações correlatas. As informações do meio se instalam no corpo; o corpo, alterado por elas, continua a se relacionar com o meio, mas agora de outra maneira, por está transformado. Assim transformado continua suas trocas, que agora passam a ser outras. O meio vai sendo modificado e o corpo também, em processos co-evolutivos permanentes e inestancáveis e as noções de dentro e de fora ficam desestabilizadas.”(KATZ, 2011)

Mas de que modo o entorno se torna corpo? Diz Katz em seu estudo Por uma compreensão do Contemporâneo (2008):
“O corpo nunca existe em si mesmo, nem quando está nu. Corpo sempre é um estado provisório da coleção de informações que o constitui como corpo. Esse estado vincula-se aos acordos que vão sendo estabelecidos com o ambiente onde vive.”(KATZ, 2008)

O corpo está inserido em um contexto. Porém a noção de contexto também é variável. Contexto inclui noosfera, sistema cognitivo (mente, pensamentos), mensagens que fluem paralelamente, memória de mensagens prévias que foram processadas ou experienciadas e, sem dúvida, antecipação de futuras mensagens que ainda serão trazidas à ação, mas já existem como possibilidade.  O contexto em que algo acontece nunca é passivo. Katz afirma que o ambiente no qual toda mensagem é emitida, transmitida e interpretada nunca é estático, mas sim contexto-sensitivo. Que trabalha em correlação com o corpo, no tratamento do fluxo de informações permanente que os comanda. Afirma ainda que o transito de trocas é tão intenso e frequente que impede o uso do verbo “ter” e pede pelo verbo “estar”, pois o corpo é um estado, apenas um estado dessa coleção de informações que vai mudando. Capturadas pelo nosso processo perceptivo, que as reconstrói com as perdas habituais com as perdas habituais a qualquer processo de transmissão, as informações passam a fazer parte do corpo de uma maneira bastante singular: são transformadas em corpo. Trata-se do processo de embodiment(10): são as interações entre corpo e mundo.(THELEN, Ester).

Se vamos transformando o mundo em corpo, há que atentar para e zelar pelo que vamos colocando no mundo, pelas atitudes que tomamos e pelas que não tomamos, uma vez que ambas marcam uma diferença nas transformações que estão sempre em curso.

A noosfera fala sobre uma atmosfera de trocas permanentes de informações que se aproximam e se amplificam por afinidade, reforçando-se e tendendo a borrar as próprias delimitações, produzindo uma plasticidade de fronteiras não controlável. É um traço evolutivo.

Katz diz que o homem esta diretamente implicado naquilo que ele observa, uma vez que a matéria se transporta no trânsito natureza – cultura – natureza _ cultura..... Não há melhor lugar para deixar explicito o tipo de relacionamento existente entre natureza e cultura que o corpo humano.

Nosso corpo é a porta de entrada do conhecimento. Idéias e emoções estão codificadas como informação nos memes (Dawkins, 1976) como replicadores de informação cultural, análogo ao gene. Pensamento e expressão estão misturados no movimento de um corpo que dança. Uma idéia (genótipo) se cristaliza no corpo (fenótipo) por fazer dele seu fenótipo estendido.

“Uma vez que os memes não vêm embrulhados por instruções para sua replicação, devem depender do padrão do nosso cérebro para fazer isto por eles. Trata-se de um estado de dependência que favorece o seu potencial proliferativo porque a máquina do cérebro constrói e continuamente atualiza modelos mentais do mundo para aumentar a assimilação e a implementação de memes e suas descendências.” (Gabora, 1997,20)

O meme faz parte da comunidade interpretativa que o fortalece ou o descarta conforme sucessivos acordos de sobrevivência. Isso significa que, quando selecionado, seu uso o torna recorrente, de tal modo que fica favorecido pela coletividade, e se espalha rapidamente por contaminação. Quanto mais repetido for, mais se acredita nele e mais aceito fica. A força de proliferação de uma idéia anda junto com a sua redundância e sua promoção como verdade metafórica. Esta é a atmosfera da noosfera, a atmosfera onde habitam e se replicam os memes.

Se conceitos estão fisicamente codificados no cérebro, como memes, e enraizados no corpo como seus fenótipos estendidos, nossos cérebros e corpos podem mudar _ memes são evolutivos. Por ser uma caracteristica estética de características singulares no trato do movimento, a dança pode contribuir no desvendamento dos modos de ‘manifestar informações no corpo’.


 (10) embodiment: incorporação, corporificação, encarnação.

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