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domingo, 6 de novembro de 2016

O CORPO QUE DANÇA

“O fim principal a ser proposto para si próprio, deve ser buscado no próprio sujeito, na relação de si para consigo”
FOUCAULT, M. História da sexualidade: o cuidado de si. Ed. Graal, Rio de Janeiro,  1985.

Lela Queiroz em Corpo, Mente, Percepção (2009) afirma que o corpo atua com dispositivos sensores que captam sinais no ambiente, externos, e respondem com ações capazes de lidar com os estados internos. É assim que otimiza ou impossibilita sua sobrevivência.

O corpo que dança, o corpo em movimento, acessa uma classe especial de linguagem onde o mais tênue impulso de sensação já vem acompanhado por sensações cinestésicas. Possibilita contato com o inconsciente cognitivo, cujo entendimento modifica o modo como lidamos diretamente com o corpo e modifica o modo como percebemos o mundo a nossa volta, as coisas que estão envolvidas, as correlações de nossas ações, gestos, atitudes e comportamentos.

No corpo, movimento é percepção. No corpo comunicador, o movimento é a condição da comunicação. O que instaura a comunicação no corpo é o movimento. O movimento é informação, o cérebro não é apenas o controlador do movimento.

A arte da dança é aquela que formula com o corpo as suas hipóteses especulativas sobre o mundo. Uma verdade interior (invisível) é expressa (tornada visível) pelo corpo que dança. A dança traz para a luz algo guardado em algum ‘quarto escuro’ do corpo. Uma informação muitas vezes ainda não acessada é trazida à tona pelo corpo que dança para ser conscientizada por ele. Não é uma expressão qualquer, mas é um ‘poderoso discurso confessional’ que por si só se legitima. Este corpo que dança a que nos referimos, dança, acima de tudo, para si. Por si e para si. Com diz Foucault (1985):

O fim principal a ser proposto para si próprio deve ser buscado no próprio sujeito, na relação de si para consigo” (FOUCAULT, 1985, p.69)

Esse trânsito entre o dentro e o fora diz respeito a todas as instâncias do corpo, e o cérebro seria o comandante principal das ações desse corpo situado num contexto irrigado por informações plurais, capazes de promover novas percepções para velhas questões. 

Para Katz (2003), a indeterminação do cérebro é sua força maior, pois, assim, ele se adaptaria ao corpo onde se encontra. Daí a idéia de processo, evolução e desenvolvimento constante e complexo. A co-evolução do cérebro daria, portanto, ao corpo o mérito das conexões para o entendimento das relações entre natureza e cultura.

Residiria nessa afirmação nossa responsabilidade na conformação de nosso corpo, através da seleção das “coleções de informação” em que desejamos nos “colar”, pois, da qualidade e variedade dessas informações dependeria, em certo grau, nossa própria constituição, influenciada também, obviamente, pelos determinismos biológicos e forças sociais. Ou seja, se as mudanças biológicas de nosso corpo são da ordem do determinado e ocorrem de forma extremamente lenta, nossas ações de percepção da informação, ao contrário, são rápidas, plásticas e transformadoras do corpo e do sujeito.

Somos seres moventes, em movimento e implicados em um mundo de movimentações. Tudo está em fluxo. Como afirma Helena Katz (2003):

“a dança é o pensamento do corpo”
para compreender a dança, precisamos de olhos que vejam aquilo que não porta visualidade plena.”

Para a autora, o corpo está em constante evolução e constitui-se em uma mistura de determinismos e aleatoriedades, isso porque ele opera de acordo com suas capacidades biológicas e altera-se em comunhão com o meio em que está inserido. Esse movimento do corpo, em sua relação com o espaço, estaria presente já no embrião humano e seria inestancável e permanente no curso da vida.

Katz (2003) corrobora com a visão já esboçada da relação evolutiva entre organismo e meio, na qual homem e natureza co-evoluem, e é sob essas circunstâncias que ela postula o corpo como mídia básica dos processos de comunicação da natureza. Esta abordagem propõe, portanto, o ser vivo como processador de informação entre o ambiente circundante e seu interior.

As transformações desses processos informacionais seriam uma exigência da maior complexidade da vida, sendo o corpo um lugar privilegiado, no que diz respeito à explicitação da evolução e do relacionamento entre natureza e cultura.

O corpo que dança, dança as improvisações do movimento, ou seja, movimentos não são coreografados ou pré-estabelecidos, acontecem em um plano de instantaneidade não programada e não repetida e nascem de um momento único na confluência dos fluxos. São movimentos criados instantaneamente, a partir das informações percebidas de forma intuída, inspirada e que jamais se repetirão.

Em que medida são informações ‘puras’ ou fruto do envolvimento da noosfera? Que tipo de informação está sendo acessado? Que meme está sendo replicado? Poderíamos dizer que não importa a origem do que inspira o movimento, até porque difícil será identificá-la. O importante é sentir e manifestar na dança a força presente. A dança desdobra-se continuamente entre o ato e a potência, mobilizando sua própria potencialidade enquanto linguagem, sua dançabilidade em sendo dança. O que a particularidade gestual de um corpo comunica é sua própria dançabilidade, ou seja, a potência de o movimento tornar-se dança, tornar-se linguagem.

A dançabilidade liberta o corpo que dança, das exigências da representação e permite uma experiência de dança que aponta para a legitimidade do movimento e dos gestos. Assim, garante à dança potência e subterfúgios para dizer de si mesma, sem a necessidade de dizer de algo e sem se despregar do corpo a qual pertence. Assim a dança, enquanto linguagem que se torna acontecimento, pode nos auxiliar na revelação desse campo de forças e sentidos.

Neste processo, a ação do tempo, do acaso, do aleatório e do imprevisível sempre estão presentes. O acaso pode introduzir ou reafirmar na dinâmica do corpo que dança, um modo de dialogar com o que está além do universo criativo ou referencial do dançarino, ou seja, com aquilo que ele não alcança, ao menos de forma consciente. Considerando que, em contrapartida, toda resultante desse diálogo passará por seu crivo, consequentemente, sua base social, cultural ou psíquica pode influenciar a condução do processo ou a aceitação dos resultados. O acaso é considerado então, como exercício de liberdade criativa que acolhe a tensão de transitar entre as fronteiras do controle e do descontrole, ou ainda, do previsível e do imprevisível. Perpassa por estimular procedimentos moldados na aceitação da incerteza, articulando uma maneira particular de integrar experimentação, espontaneidade e descoberta, sem submetê-los, a condições ou compromissos associados a resultados pré-estabelecidos.

Laban, (Rudolf Von Laban (1879-1958), eslováquio, bailarino, coreógrafo e considerado um dos mais importantes teóricos da dança do no século XX que buscou identificar os princípios inerentes ao movimento, afirma que o movimento é dançado quando “a ação exterior é subordinada ao sentimento interior”, abrindo no espaço a dimensão do infinito que compõe o tecido da dança. O dançarino pode ser considerado aquele que medita em movimento, sua alma está onde seu corpo está, e seu pé está onde sua alma está. A arte de dançar é o meio de tornar visível este jogo de forças invisível.

Somos corpo do mundo, pois a ele pertencemos. E somos corpo no mundo, pois nele agimos. E de que forma os movimentos do mundo se enredam aos nossos movimentos no mundo?

A dança se faz em teia, portanto pede conhecimentos plurais para ser investigada.

(serão expandidos estudos do BMC – Escola Corpo & Mente, Movimento e Contato – procedimentos por meio do contato e movimento, adentrando as camadas do organismo pela pele, por desenvolvimento evolutivo)












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