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domingo, 6 de novembro de 2016

A NOOSFERA a esfera do pensamento humano


 “As idéias e, mais amplamente, as coisas do espirito, nascem dos próprios espíritos, em condições socioculturais que determinam as suas características e as suas formas, como produtos e instrumentos de conhecimento.
Contudo, algumas filosofias, chamadas idealistas, em primeiro lugar a de Platão reconheceram na Idéia, não só uma realidade autônoma, mas a realidade senhora das coisas deste mundo. Em Pitágoras são os Números que desempenham o papel transcendental das Idéias platônicas. Para Hegel, a Idéia é Sujeito, que se autodetermina esse auto-realiza na História.
Renasce constantemente na história do pensamento, a concepção de um mundo sobre-real da Idéia ou do Número, que determina e guia a nossa realidade.
É sob um ponto de vista diferente que Jung elabora a sua concepção de arquétipos, considerados formas à priori, ou Imagens primordiais, virtuais em todo espirito humano. Matrizes universais do inconsciente coletivo eles comandam e controlam os nossos sonhos e os nossos mitos.
Em contrapartida, na realidade sociológica e cultural, os mitos tornam-se produtos, ou seja ilusões e as idéias aparecem como instrumentos. Ao nível da sociedade, o sociologismo, o economismo, o culturalismo, rebaixam as idéias a uma sub-realidade auxiliar e servil. Nas concepções materialistas, o mundo das coisas do espírito só pode ter uma realidade inferior ou derivada.

Assim vemos que o mundo das idéias oscila entre a sobre-realidade e a sub-realidade. Que idéia devemos ter da idéia? Que estatuto lhe devemos atribuir? Se o primeiro erro consiste em acreditar na realidade física dos sonhos, deuses, mitos, idéias, o segundo erro consistem lhes negar a realidade e existência objetivas.” (Edgard Morin, 1991)

Na teoria original de Vernadsky(8), a Noosfera seria a terceira etapa no desenvolvimento da Terra, depois da geosfera (matéria inanimada) e da biosfera (vida biológica). Assim como o surgimento da vida transformou significativamente a geosfera, o surgimento do conhecimento humano e os consequentes efeitos das ciências aplicadas sobre a natureza, alteraram igualmente a biosfera.

A partir da litosfera (rochas), surgiu a hidrosfera (água), em seguida a atmosfera (ar), posteriormente a biosfera (vida), e por fim a antroposfera (ser humano).  Pela teoria evolucionista desenvolvida por Teilhard de Chardin, reafirmada por Rudolf Steiner e outros pensadores contemporâneos, a humanidade, passará da tecnosfera (cibercultura), em crescimento exponencial na sociedade atual, para uma etapa consciencial mais avançada do processo evolucionário _ a da noosfera. Noosfera como a palavra diz nous (em grego significa mente, inteligência), expressa a convergência de mentes e corações, originando uma unidade mais alta e mais complexa. Trata-se do começo de uma nova história, a história da Terra unida com a Humanidade, expressão consciente e inteligente da Terra.

O conceito da noosfera trazido pelo filósofo francês Teilhard de Chardin (1881 – 1911), diz respeito ao mundo ou esfera das idéias, formado por produtos culturais, pelo espirito, linguagens, teorias e conhecimentos. Seguindo esta linha de pensamento, alimentamos esta esfera quando pensamos e nos comunicamos. Chardin, paleontólogo e teólogo, diz: “cada um de nós liga se por todas as suas fibras materiais, orgânicas, psíquicas, a tudo o que o circunda”.

Noosfera diz respeito à atmosfera invisível aos olhos, mas perceptível a outros sentidos; são os fluidos do pensamento tecendo uma rede que interconecta todas as mentes, reforçando e replicando aquilo que é maciçamente pensado. A noosfera trabalha as imagens endógenas do cérebro que dialogam com o inconsciente coletivo. Dialogam com os arquétipos coletivos e individuais, fazendo uma ponte entre o mundo cultural, imaginário e o mundo da vida.

Diz Edgar Morin, (1929-), antropólogo e sociólogo francês, principal teórico no campo de estudos do pensamento complexo:

“A noosfera não é apenas o meio condutor/mensageiro do conhecimento humano. Produz, também, o efeito de um nevoeiro, de tela entre o mundo cultural, que avança cercado de nuvens, e o mundo da vida. Assim, reencontramos um paradoxo maior já enfrentado: o que nos faz comunicar é, ao mesmo tempo, o que nos impede de comunicar” (MORIN, 2001, p.141).
“As representações, símbolos, mitos, idéias, são englobados, ao mesmo tempo, pelas noções de cultura e de noosfera. Do ponto de vista da cultura, constituem a sua memória, os seus saberes, os seus programas, as suas crenças, os seus valores, as suas normas. Do ponto de vista da noosfera, são entidades feitas de substância espiritual e dotadas de certa existência”. (MORIN, 2001, p.139).

Teilhard de Chardin(9) já em sua época, aborda este aspecto da complexidade, afirmando que à medida em que o estofo do universo se complexifica _ dado material, objetivo _ simultaneamente emerge de dentro dele o fenômeno do pensamento _ dado espiritual, subjetivo. Parte da seguinte dedução: é inegável o fato da  complexificação da matéria, uma vez que com um pouco de complexificação emergiu a vida na matéria, parece razoável que, com um pouco mais de complexificação, emerja o pensamento. Por complexidade sempre maior todo ser é, de certo modo, síntese dos que lhe antecederam e lhe são inferiores.

Considerando o universo um sistema orgânico dinâmico em vias de complexificação material e interiorização psíquica, é dado ver o homem, na linguagem teilhardiana, como ‘eixo-e flecha da evolução.’  Afirma o autor que este processo evolutivo não é uma marcha gradual, contínua e lenta, mas sofre em algumas etapas, verdadeiros saltos qualitativos.

O surgimento da vida na terra segundo ele, e posteriormente o surgimento do pensamento reflexivo, da consciência de si, de saber que se sabe, podem ser considerados saltos de elevação, novos degraus na escala da evolução. Afirma ele que o fenômeno humano é o fenômeno espiritual que nasce de uma profunda transformação de tudo aquilo que o precedeu e preparou, mas, ao aparecer, apresenta características inteiramente novas. Em sua visão o fenômeno humano seria constituído pela constituição do espírito, na sequencia da complexificação material e interiorização psíquica.

A noosfera está em nós e nós estamos na noosfera. Mais ainda, a noosfera é criada e constantemente recriada, pela própria subjetividade. O grande princípio da incerteza incide na nossa possibilidade de conhecer. Temos a necessidade do apoio do real, mas o que é o real senão aquilo que a idéia nos designa com tal? A sua complexidade é tecida de incertezas, pois tudo são traduções...

Há dois universos que disputam entre si as nossas sociedades, as nossas vidas, os nossos espíritos. Partilham o terreno mas excluem-se um no outro. Um só pode ser positivo quando o outro se torna negativo. Um só pode ser real se remete o outro para a ilusão. Num, o espirito não é mais que uma eflorescência, um fantasma, ao passo que no outro, a matéria não é mais que uma aparência, um peso, uma cera que o espírito molda.

O humanismo ocidental consagra a disjunção entre os dois universos, ao mesmo tempo que se instala num e no outro. Assim, vê na ciência o aspecto que faz dela o instrumento de dominação da natureza e ao homem, seu manipulador, o sujeito do universo. Mais amplamente, o universo da religião, da mística, da poesia, da literatura, da ética, da metafísica,  torna-se o contrapeso necessário ao universo hiperobjetivo, pragmático. Os indivíduos passam cotidianamente de um universo ao outro, jogando às escondidas, ocultando-se um ao outro, manipulando-se um ao outro, numa dupla vida. Por um lado, uma vida com a presença e a intervenção da experiência interior, uma visão das coisas e dos acontecimentos segundo a subjetividade (qualidades, virtudes, vícios, responsabilidade). Por outro lado, uma vida de explicações deterministas e mecanicistas. Assim a vida cotidiana de cada um é ela própria determinada e afetada pelo grande paradigma em transição para uma metavisão de complexidade.

noosfera . o que dizem pensadores contemporâneos

Para Friedrich Ludwig Gottlob Frege, matemático, lógico e filósofo alemão, trabalhando na fronteira entre a filosofia e a matemática, e um dos principais criadores da lógica matemática moderna, os pensamentos não são, nem coisas do mundo exterior, nem representações interiores, constituem sim uma outra natureza de realidade.

Karl Popper, um dos filósofos mais influentes do século XX a tematizar a ciência, dividiu o universo humano em três mundos: o mundo das coisas materiais exteriores, o mundo das experiências vividas, o mundo constituido pelas coisas do espirito, produtos culturais , linguagens, a noosfera( chamada por Popper “o mundo três”). Assim Popper chega à idéia importante em que se funda a realidade própria da noosfera, embora produzidas e dependentes, as coisas do espirito adquirem uma realidade e uma autonomia objetiva.

Gregory Bateson, biólogo, antropólogo e grande pensador sistêmico e epistemólogo da comunicação, que incorreu também pela psiquiatria, psicologia, sociologia, lingüística, ecologia e cibernética, na sua obra Ecologie de l´’esprit, chega às seguintes interrogações: ”Como agem as idéias umas sobre as outras? Haverá uma espécie de seleção natural que  determina a sobrevivência de certas idéias e a extinção de outras? Que tipo de economia limita a multiplicação das idéias numa região do pensamento? Quais são as condições necessárias para a estabilidade (ou sobrevivência) de um sistema deste gênero? “ (Bateson, 1997, p11)

Wojciechowski, professor de filosofia na Universidade de Otawa, considera as construções intelectuais (knowledge construct) uma esfera dotada de um poder próprio. Não é a soma dos conhecimentos individuais, mas é o produto de todos os processos de conhecimento que, embora construídos pelos homens e inseparável deles, constitui uma entidade que se tornou distinta. Uma vez formadas, as construções mentais, intelectuais vivem uma vida própria, lançando-se em relações dialéticas com outras “construções”, e originam consequências frequentemente imprevistas pelos seus autores.

O físico Pierre Auger quanto ao entendimento desta noosfera, refere-se a um novo reino, constituído por organismos bem definidos, as idéias, que se reproduzem por multiplicação idêntica nos meios constituídos pelos cérebros humanos, graças às reservas de ordem que ai se encontram disponíveis. As idéias são dotadas de uma vida própria, porque, como os vírus, dispõem, num meio cultural/cerebral favorável, da capacidade de autonutrição e auto-reprodução. Assim, os cérebros humanos e as culturas constituem ecossistemas do mundo das idéias.

O biólogo evolucionista Richard Dawkins, autor do clássico O Gene Egoista, elabora em 1976 a noção de meme, unidade elementar de réplica cultural, dotada de autonomia que, como estruturas vivas propagam-se de cérebro para cérebro. Semelhante à transmissão genética, a transmissão cultural ocorre em algumas espécies de seres vivos, como os primatas e as aves, mas é no ser humano, devido à condição do pensamento reflexivo,  que a evolução cultural aparece mais lucidamente. Tudo o que não é geneticamente determinado, todos os comportamentos sociais, todas as idéias, conceitos e teorias, tudo oque uma pessoa é capaz de imitar ou aprender, e consequentemente toda a cultura é um conjunto de memes, que se replicam continuadamente pelo pensamento.

O bioquímico francês Jaques Monod, ganhador do Premio Nobel de Medicina em 1965, reconhece a realidade e autonomia da noosfera, completa a idéia de simbiose entre a noosfera e o homem com a de parasitismo mutuo e exploração mutua: “A noosfera, por ser imaterial, apresenta analogias perfeitas com a biosfera de onde emergiu. Uma idéia transmissível constitui um ser autônomo, capaz de se conservar, de crescer, de aumentar de complexidade.” “É necessário considerar o universo das idéias, ideologias, mitos, deuses, saídos dos nossos cérebros, como “existentes”, seres objetivos dotados de um poder de auto-organização e de auto-reprodução, obedecendo a princípios que não conhecemos e vivendo das relações de simbiose, de parasitismo e exploração mútuas conosco”.

Edgar Morin, (1929-), antropólogo e sociólogo francês, principal teórico no campo de estudos do pensamento complexo, foi incitado a partir destas colocações de Auger/Monod, a explorar uma noosfera povoada de seres “viventes” e a encarar a possibilidade de uma ciência das idéias, que seria ao mesmo tempo, uma ciência da vida dos “seres de espirito”: uma noologia. Só as Filosofias Idealistas reconheciam às Idéias Soberania, Poder, Reino, mas elas eram incapazes de as inserir nos mundos físicos, biológicos e humanos. Morin orienta seus estudos do ponto de vista dos espíritos/cérebros humanos que produzem as idéias (Antropologia do Conhecimento) e do ponto de vista das condições culturais de sua produção (Ecologia das Idéias). Teorias, doutrinas, filosofias, ideologias, não tem de ser julgadas apenas como erros e verdades na tradução que fazem da realidade. Elas não tem de ser concebidas apenas como produtos de uma cultura, de uma classe, de uma sociedade. São também seres noológicos, alimentando-se de substância mental e cultural, e algumas delas, carregadas de forte substância mítico-religiosa, podem desenvolver um poder extraordinário de subjugação e posse. É da noosfera, o conjunto massivo de pensamentos similares que se replicam aumentando sua força de ação sobre o sujeito, e revolucionante, possibilitará a emergência de uma nova consciência planetária.


(8) Vladimir Ivanovich Vernadsky (1863-1945) foi um mineralogista e geoquímico russo que cunhou a palavra ‘biosfera’ no final do sec. XIX e trouxe uma compreensão da vida terrestre concebida como totalidade 

            (9)Teilhard de Chardin (1881 – 1911)
Padre jesuíta, paleontologista e filosofo, natural de Orcines, França, Chardin elaborou uma síntese de fenômenos físicos e biológicos, concluindo pela evolução do universo em direção a Deus. Sua obra mais importante foi O Fenômeno Humano; construiu um pensamento filosófico e antropológico que se pautou na noção de que o processo evolutivo possui um sentido. Para ele, um fio condutor interior à matéria conduz este mecanismo evolutivo rumo a um centro de convergência: o “Ponto Ômega”, momento em que toda a natureza retornará a Deus e todos homens, enquanto pessoas, promoverão a união no hiperpessoal por meio da energia do amor.
Ele via a evolução como um processo que se desenrola desde o estágio caótico do Universo até a emersão da consciência humana no Globo terrestre, a qual precede o momento da Noogênese, quando todos os pensamentos irradiados por uma mente humana desenvolvida constituirão uma tessitura inteligente única. Neste momento um extrato a mais envolverá o Planeta, a Noosfera.










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