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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PARA UMA RAZÃO ABERTA

"Hoje, parece-nos racionalmente necessário repudiar toda a “deusa” razão, isto é, toda a razão absoluta, fechada, auto-suficiente. Temos que considerar a possibilidade de evolução da razão.

A razão é evolutiva A razão é o fenômeno evolutivo que não progride de forma evolutiva e linear, como julgava o antigo racionalismo, mas por mutações e reorganizações profundas....A razão deve deixar de ser mecanicista para tornar-se viva.

Crítica e superação da razão fechada A razão fechada rejeita como inassimiláveis fragmentos enormes de realidade:....a questão da relação sujeito-objeto no conhecimento; a desordem, o acaso; o singular, o individual (que a generalidade abstrata esmaga); a existência e o ser, resíduos irracionalizáveis....A poesia , a arte, que podem ser tolerados ou mantidos como divertimento, não podem ter valor de conhecimento e de verdade, e encontra-se rejeitado, bem entendido, tudo aquilo que denominamos trágico, sublime, irrisório, tudo o que é amor, dor, humor...

Só uma razão aberta pode e deve reconhecer o a-racional. Pierre Auger observou que não nos podíamos limitar ao dítico racional-irracional. Há que acrescentar o a-racional: o ser e a existência não são nem absurdos, nem racionais, eles são. Ela pode e deve reconhecer igualmente o sobrerracional (Bachelard). Sem dúvida toda criação e toda invenção comportam alguma coisa desse sobrerracional, que a racionalidade pode eventualmente compreender depois da criação, mas nunca antes. Pode e deve reconhecer que há fenômenos simultaneamente racionais, irracionais, a-racionais, sobrerracionais, como talvez, o amor...

Por aí, uma razão aberta torna-se o único modo de comunicação entre o racional, o a-racional, o irracional.

A razão complexa A razão fechada era simplificadora. Não podia enfrentar a complexidade da relação sujeito-objeto, ordem-desordem. A razão complexa pode reconhecer estas relações fundamentais. Pode reconhecer em si mesma uma zona obscura, irracionalizável e incerta. A razão não é totalmente racionalizável...

A razão complexa já não concebe em oposição absoluta mas em oposição relativa, isto é, também em complementariedade, em comunicação, em trocas, os termos até ali antinômicos: inteligência e afetividade, razão e desrazão. Homo já não é apenas sapiens,  mas sapiens/demens.

...O real sempre excede o racional. Mas a razão pode desenvolver-se e tornar-se complexa. “A transformação da sociedade que o nosso tempo exige revela-se inseparável da auto-superação da razão (Castoriadis)."
(Edgar Morin. Ciência com Consciência)